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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Cidadão Desconhecido, de W.H. Auden

Wystan Hugh Auden foi um importante poeta anglo-americano que possuía um perfil bastante contestatório. Auden escrevia sobre vários temas que incomodavam a opinião pública e o governo, falava sobre guerras, a burocracia moderna, bordéis e sexualidade. Homossexual assumido e integrante de políticas socialistas de esquerda, deixava transparecer, mesmo que implicitamente, esses temas em sua poesia. Porém, depois que atingiu certa idade, Auden se converteu ao Catolicismo, dando mais espaço à religião na sua obra.

Em um de seus poemas mais conhecidos, O Cidadão Desconhecido, ele trata da padronização e burocratização do mundo contemporâneo. A palavra "desconhecido" pode ser considerada irônica, já que toda a vida do cidadão é descrita no poema através de informações de empresas, institutos, órgãos e imprensa, o cidadão é desconhecido pelo nome, mas sua vida é bastante comum à dos outros e bastante controlada pelas ferramentas do meio onde vive. No final, ele crava uma frase arrebatadora: "Era livre? Era feliz? A pergunta é absurda: se algo estivesse errado, com certeza teríamos sabido".

Para ler o poema traduzido para o português por João Ferreira Duarte, clique AQUI.

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A velocidade moderna no poema "Ode Triunfal", de Pessoa

Poeta de várias facetas e identidades, Fernando Pessoa sob o heterônimo de Álvaro de Campos escreveu sobre os avanços da modernidade durante sua fase futurista. Neste contexto surgiu o poema "Ode Triunfal".

A situação histórica do progresso industrial e tecnológico, advindos das Revoluções Industriais, deixa o eu-lírico antes extasiado pela máquina, sedento de sentir e ser como tal: "Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!". Porém, ao longo do poema vemos que o novo e também futuro mundo - "eia todo o futuro já dentro de nós" -, com todos os seus avanços tecno-industriais, esconde por trás uma falta do sentir e um excesso do ambicionar:

"Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá náufragos deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje!"

Para ler o poema completo, clique AQUI.

Douglas P. Coelho

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A poesia feminista por autores(as) atuais


A poesia social e engajada existe há um longo tempo, com suas origens firmadas na época do Romantismo, no início do século XVII. Porém, certos movimentos e ideologias igualitárias e de reivindicação de direitos só foram adentrando este campo artístico na modernidade e, alguns, apenas nos últimos anos. Um desses casos é o do movimento feminista, que teve em figuras como Virginia Woolf e Simone Beauvoir suas maiores representantes na literatura e também algumas das primeiras a tratar do tema com maior profundidade.

Mas na contemporaneidade, especificamente nas últimas décadas, à medida que o tema vem sendo mais debatido e tomando a forma de constantes reivindicações, a literatura - como arte que caminha os mesmos passos de seu contexto histórico - vem abrindo maior espaço para novos autores visitarem o assunto. O espaço SedeDeQuê? é dedicado ao feminismo moderno e contém uma página voltada à arte de poemas com essa ideologia, escritos por novos autores.

Leia alguns dos poemas no espaço SedeDeQuê? (clique sobre o nome para acessá-lo).

Douglas P. Coelho

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Fernando Pessoa e seus heterônimos sobre a guerra


Um dos mais cultuados poetas da história, Fernando Pessoa, juntamente com seus famosos heterônimos, também escreveu sobre o tema da guerra.

Sobre o assunto, três são os poemas que podemos destacar: "Tomamos a Vila Depois de Um intenso Bombardeamento", "A Guerra Que Aflige Com Seus Esquadrões" (assinando como Alberto Caeiro) e "Ode Marcial" (assinando como Álvaro de Campos). Seu toque lírico sempre especial e único, empresta ao tema a sublimidade que só o herdeiro de Camões poderia alcançar.

Abaixo, clique nos links para ler os poemas:
A Guerra Que Aflige Com Seus Esquadrões
Ode Marcial
Tomamos a Vila Depois de Um intenso Bombardeamento

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Nazim Hikmet, o poeta da distância e da separação


Tido como o maior e mais reconhecido poeta da Turquia, Nazim Hikmet teve o destino que parece acometer grande parte dos intelectuais que vivem em duras épocas: passou anos e anos exilado e na prisão, além de ter perdido sua nacionalidade turca em 1951, retirada pelo governo de seu país - fato que só sofreu reviravolta a pouco tempo, em 2009, quando "recebeu de volta" sua nacionalidade, muitos anos após suas morte de 1963.

O enorme tempo que passou exilado e preso, longe da sua terra nativa, resultou numa temática muitas vezes saudosista do poeta, em que lastima a distância e a separação do seu local de origem, sua esposa e seu povo - a distância e separação das nações e das pessoas é também uma preocupação de Hikmet. Fica claro esse apelo nos poemas "Nostalgia" e "Angina", este último também um clamor pelo resto do mundo que ardia em guerras. Ao poeta não lhe importa as enfermidades físicas, só o que lhe pode adoecer são a falta de paz e a sua impotência diante da distância dos povos.

O poema "A menina" faz uso da inocência infantil para se contrapor à barbárie causada pela guerra, referenciando a bomba atômica de Hiroxima e seus efeitos sobre as gerações futuras que nasceram naquela cidade: "Morta em Hiroxima há mais de dez anos, sou uma menina de sete anos (...) Não matem as crianças e deixem-nas também comer bombons". E em "Eles não nos deixam cantar", seu clamor se volta para a falta de liberdade que passavam os artistas, principalmente os dissidentes, usando de referência Paul Robeson, cantor e ativista negro: "Eles não nos deixam cantar Robeson (...) Eles têm medo, Robeson, medo da aurora, medo de ver, medo de ouvir, medo de tocar. Eles têm medo de amar."

Para ler os poemas, segue os links abaixo:
"Angina" e "Eles não nos deixam cantar"
"Nostalgia" e "A menina"

Douglas P. Coelho

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A atmosfera sepulcral em Réquiem, de Anna Akhmatova

Uma das maiores escritoras russas, Anna Akhmatova viveu a época do duro regime estalinista e padeceu como civil e principalmente como mãe e esposa. Seu filho Lev Gumiliov foi encarcerado e seu marido e também poeta, Nicolai Gumiliov, executado por ser acusado de ir contra os valores soviéticos.

O sofrimento que teve que suportar foi transportado para seu maravilhoso, mas triste poema "Réquiem", composto entre 1935 e 1940. Como o próprio título já sugere, o texto é permeado por um lamento trágico, um enfrentamento quase físico da morte e da dor. A pequena estrofe que abre o poema já antecipa o iminente caos que assolou a União Soviética e que vinha a ser narrado ao decorrer do poema: "Não, não foi sob um céu estrangeiro (...) eu estava bem no meio de meu povo, lá onde meu povo infelizmente estava".

O contexto histórico é conhecido através do sofrimento pessoal do eu-lírico da poeta, é por meio da forma como recai sobre ela a pesada realidade que somos apresentados ao que se passava naquele país - e que foi comum a tantos países ao longo da história. A realidade é inclusive cravada como irremediável e opressora: "Houve um tempo em que só sorriam os mortos, felizes em seu repouso". Os dramas a que passaram seu filho e seu marido, foi o drama de incontáveis soviéticos: "E quando, enlouquecidos pelo sofrimento, os regimentos iam embora, para eles as locomotivas cantavam sua aguda canção de despedida". No poema, há muito a sentir e, apesar de sua linguagem clara, carrega uma lírica lúgubre tocante.

Para ler o poema "Réquiem" traduzido para o português por Lauro Machado Coelho, clique neste LINK.

Douglas P. Coelho

terça-feira, 31 de julho de 2012

Poema "A Escravidão" de Tobias Barreto


Tobias Barreto foi um importante poeta brasileiro, embora muito esquecido pela crítica. Participou do movimento literário do Romantismo, tendo inclusive a fundação do Condoreirismo creditada a ele.

O Condoreirismo ou Terceira Fase Romântica, foi um movimento artístico-literário marcado pelo poema social e de defesa do abolicionismo, de ideias republicanas e igualitárias. Portanto, a temática da escravidão era recorrente (ver posts sobre Castro Alves no blog); abaixo, confira o poema "A Escravidão", de Tobias Barreto, publicado no livro "Dias e Noites" (1893):

A Escravidão
Tobias Barreto

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...

1868

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Maria du Bocage e sua luta pela liberdade

Manuel Maria du Bocage é sem dúvidas um dos maiores poetas em língua portuguesa. Sua imensa versatilidade lhe permitia transitar pelas poesias lírica, satírica, bucólica, erótica e boêmia com enorme facilidade. Bocage também escreveu poesias que faziam ode à liberdade.

O poeta português foi contemporâneo da Revolução Francesa e das revoluções e clamores de independência em volta do mundo. O próprio poeta desenvolveu seu clamor pela sua independência, já que foi várias vezes impedido de publicar seus ácidos poemas que criticavam e faziam troça das instituições vigentes como a igreja e o Antigo Regime, tendo assim sua liberdade de expressão restringida. Seus poemas "Liberdade, onde estás" e "Liberdade querida e suspirada" mostram o que ele via em relação à democracia de sua época.

Para ler os dois poemas citados, clique nos links abaixo:

Liberdade, onde estás
Liberdade querida e suspirada

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A delicadeza de Cecília Meireles sobre a guerra

Cecília Meireles é sempre lembrada como um dos maiores nomes da literatura brasileira. Sua obra é riquíssima, publicou clássicos como Romanceiro da Inconfidência (1953), Mar Absoluto (1945) e Ou Isto Ou Aquilo (1964); Cecília lançou seu delicado olhar sobre os mais diversos temas como o amor, a velhice, os sonhos, a espiritualidade, os fatos históricos, etc. Além deles, a guerra e seus horrores também teve seu tratamento dado pelas linhas da poeta.

Em poemas como "Os Homens Gloriosos", "Guerra" e "Lamento do
Oficial Por Seu Cavalo Morto", Cecília assume a posição de um alguém escandalizado pelo que o homem foi capaz de fazer e que o culpa pela sua sede de glória desmedida. A poeta, que mostra com sua lírica que é diferenciada, chora por um cavalo morto e o decreta, em sua inocência, ser melhor do que nós: "Indigno, ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração. Animal encantado - melhor que todos nós! - que tinhas tu com este mundo dos homens?"; a poeta resta completamente desacreditada dos homens diante da realidade que se insere: "o clamor dos homens gloriosos cortou-me o coração de lado a lado. Pois era um clamor de espadas bravias (...) pegajosas de lodo e sangue denso"; a realidade torna-se tão inconcebível que ela deseja retornar ao pó para esquecer o que viu e ouviu os homens fazerem: "Senhor da Vida, leva-me para longe! (...) Reduze-me ao pó que fui! (...) Reduze a pó a memória dos homens, escutada e vivida".

Para ler os três poemas, clique nos links abaixo:

Os Homens Gloriosos
Lamento do Oficial Por Seu Cavalo Morto
Guerra

Douglas P. Coelho

terça-feira, 10 de julho de 2012

A ideologia da Negritude - Parte 2: Aimé Césaire


A corrente literária da Negritude, de consciência e afirmação da cultura negra, teve em Léopold Sédar Senghor um de seus mentores. Mas além dele, o outro grande idealizador foi o poeta, ensaísta e também político francês Aimé Césaire.

Um de seus poemas mais representativos e conhecidos é "Caderno de um regresso ao País Natal". Nele, Aimé Césaire demonstra toda sua veia literária e põe em discussão duas de suas maiores lutas: as lutas contra o preconceito e contra o colonialismo. Punha em dúvida o "direito" dos países de primeiro mundo em subjugar os países da Ásia e principalmente da África; além, é claro, da habilidade de se travestir com a identidade do homem oprimido, este que inclui o negro e qualquer outro tratado como tal. Essa é uma peça chave do seu poema, Césaire fala do "homem-fome", "homem-tortura", "homem-insulto" e "homem-judeu", universaliza sua luta pelo direito à vida e à dignidade humana: "o homem-fome, o homem-insulto, o homem-tortura, que a qualquer momento pode ser abusado e espancado a murros, ou morto - sim, matá-lo - sem a ninguém dar contas nem apresentar desculpas"; depois, o poeta continua: "a minha boca é a boca dos desgostosos que já não têm boca, a minha voz, a liberdade dos que sucumbem às masmorras do desespero"; versos anti-colonialistas também são enfáticos: "a África gigantescamente canilizada ante o pé hispânico da Europa, a sua nudez onde a Morte ceifa a grandes passadas"; já o conceito de Negritude aparece pela primeira vez explícito através deste poema: "Minha negritude não é uma torre nem uma catedral (...) perfura a opressão opaca da sua paciência estreita" - aqui a palavra paciência pode ser interpretada também como tolerância.

Para ler um excerto traduzido do poema "Caderno de um regresso ao País Natal", clique AQUI.

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A ideologia da Negritude - Parte 1: Léopold Sédar Senghor


O século XX foi um momento capital para a discussão e prática do conceito de direitos humanos; se os tempos anteriores serviram para a elaboração do mesmo, agora as perspectivas vinham ganhando um plano mais concreto. No que se refere à cultura negra, apesar da abolição da escravatura e da proibição do tráfico de escravos, percebia-se que havia muito a ser conquistado ainda. Então vimos emergir grandes nomes dos mais variados campos do conhecimento e de atuação - filosofia, literatura, política - que chamaram para si a missão de guiar a afirmação negra dentro da sociedade: Martin Luther King, Malcom X e Nelson Mandela foram alguns dos mais importantes e notáveis. Dentro da literatura, surgiu uma corrente literária de valorização dessa cultura negra e africana, seus costumes e suas crenças espirituais.

Um dos principais idealizadores desta corrente foi o escritor senegalês Léopold Sédar Senghor que também atuou na política, sendo eleito o primeiro presidente de Senegal. Nas suas poesias, o escritor francófono valorizava principalmente a beleza da mulher negra, descrevia e exaltava suas particularidades e qualidades. Dois ótimos exemplos são os poemas "Mulher Negra" e "Máscara Negra", este último dedicado ao artista plástico Pablo Picasso.

Leia os dois poemas de Senghor nos links abaixo:

Mulher Negra
Máscara Negra

Douglas P. Coelho

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ferreira Gullar e sua poesia social na atualidade


Ferreira Gullar, maranhense nascido em 1930, possui uma sólida carreira literária, foi um dos intelectuais e artistas brasileiros exilados durante o período da ditadura militar, é um dos fundadores da estética neoconcretista e está até hoje escrevendo poesia. O poeta, uma das bandeiras vivas da literatura brasileira, descendente lírico e temático de Drummond e João Cabral de Melo Neto, dedicou sua obra à poesia lírica de impressões e experiências pessoais e à poesia lírica social.

A preocupação pelos problemas sociais brasileiros (problemas esses que parecem ser os mesmos de vários anos atrás) aparece de forma concreta nos seus poemas, tais como a desigualdade social, o duro cotidiano do trabalhador operário, a fome, a realidade das regiões pobres e esquecidas do Nordeste, etc. No pequeno poema "Madrugada" já esboça essas linhas: "Do fundo de meu quarto, do fundo de meu corpo clandestino ouço (não vejo) ouço crescer no osso e no músculo da noite a noite... a noite ocidental obscenamente acesa sobre meu país dividido em classes", dentro de um conceito de noite tal como no poema "A Noite Dissolve os Homens" de Drummond, representando injustiça e ausência de paz; já em "Poema Brasileiro", pegou uma notícia de jornal, um fato estatístico - sobre a mortalidade infantil no Piauí - e reescreveu como um poema, modelando sua forma, usando a repetição como recurso (de novo uma semelhança com Drummond, agora em seu "No meio do caminho") para atribuir um eco abismante da realidade social - uma característica do seu neoconcretismo, doar sentimento à forma estética quase geométrica do poema.

Há também poemas em que o eu-lírico de Gullar além de denunciar as mazelas do quadro social brasileiro, também faz referência ao papel do poeta na sociedade e à forma pela qual a poesia age dentro dela. É assim que escreve "Não há vagas", "Agosto 1964" e "A bomba suja"; Gullar sabe da sua responsabilidade social e da importância da poesia, então através dela ele denuncia: "Do salário injusto, da punição injusta, da humilhação, da tortura, do horror, retiramos algo e com ele construímos um artefato... um poema, uma bandeira"; metaforiza a miséria e a iniquidade a que os oprimidos e esquecidos são submetidos na forma de "diarreia" ou "bomba suja" da qual o poeta deve denunciar em seguida estender a mão ao necessitado.

Ao clicar nos links abaixo, você poderá ler os poemas citados:

Não há vagas
Agosto 1964
Poema Brasileiro e A bomba suja (entre outros poemas que aparecem na página)

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Poetas da Resistência: Louis Aragon

Durante o período da Segunda Guerra Mundial, emergiu na França um grupo de escritores e intelectuais que se opuseram ferrenhamente ao despotismo imperialista da Alemanha Nazista integrando partidos comunistas, jornais clandestinos e a Resistência Francesa. Entre eles estava Louis Aragon, que encabeçava o movimento surrealista da literatura ao lado de Paul Éluard e André Breton.

Aragon escreveu um belo poema bastante representativo da tensa época em que o nazismo espalhava a apreensão por toda a Europa. O poema se intitula "Ballade de celui qui chanta dans les supplices" ("Balada daquele que canta sob tortura", em tradução livre), conta a história de um homem que estava encarcerado e, por não concordar em colaborar com confissões aos seus carrascos, é executado.

Ao analisar o poema por partes, percebemos alguns detalhes interessantes: no terceiro paragrafo, dois homens dizem ao prisioneiro: "dis le mot qui te délivre, et tu peux vivre à genoux" ("diga a palavra que te liberta e você poderá viver de joelhos"), dando uma ideia da submissão que o nazismo tentava impor ao mundo; a condição para que o mártir fosse liberado era que ele fizesse alguma confissão que, na verdade, era uma mentira que os carrascos queriam que ele assumisse: "Rien qu'un mot la porte cède (...) Rien qu'un mot rien qu'un mensonge, pour transformer ton destin" ("Nada mais que uma palavra para a porta se abrir (...) Nada mais que uma palavra, uma mentira, para transformar seu destino"); no final do poema, fica claro o senso de patriotismo resistente do eu-lírico, ele morre pela França, se recusa a cooperar com seus opressores pelo seu país: "Je meurs et France demeure, mon amour et mon refus" ("Eu morro e a França continua, meu amor e minha recusa"); apesar de ser executado, ele morre com convicção e sem arrependimento, cantando o hino da França - la Marseillaise - diante dos seus carrascos alemães, sendo então calado pelas balas, mas deixando um outro canto de esperança e resistência para toda a humanidade: "Il chantait lui sous les balles (...) D'une seconde rafale, il a fallu l'achever, une autre chanson française a ses lèvres est montée, finissant la Marseillaise pour toute l'humanité" ("Ele cantou para eles sob balas (...) Depois de uma segunda rajada, ele é obrigado a se calar, uma outra canção francesa sobe aos seus lábios, terminada a Marseillaise, para toda a humanidade").

Para quem quiser conferir o poema em francês na íntegra, clique AQUI (infelizmente não encontramos tradução desse poema na internet).

Douglas P. Coelho

terça-feira, 19 de junho de 2012

Canção do Outono, de Paul Verlaine, na Segunda Guerra

Paul Verlaine foi um poeta francês que viveu durante o século XIX e é considerado um dos mais célebres poetas de seu país, além de um dos expoentes do movimento simbolista na literatura. Porém, seu mais famoso poema, "Chanson D'Automne" ("Canção do Outono"), que tinha mais valor pela sua musicalidade do que pelo significado, ganhou maiores proporções no final da Segunda Guerra Mundial.

No início de junho de 1944, durante transmissões de sua rádio, a BBC de Londres utilizou o poema como um código para informar à Resistência Francesa de que muito em breve os Aliados iriam desembarcar na Europa, incluindo a França tomada pelos nazistas do Eixo. Os revoltosos da França ficaram atentos e ansiosos pela mensagem de esperança. Então, no dia 6 de junho do mesmo ano, os soldados norte-americanos desembarcaram na região da Normandia e a data ficou conhecida como "dia D".

Confira abaixo o poema original em francês e uma tradução do poeta brasileiro Alphonsus de Guimaraens:

Chanson D'Automne    
Paul Verlaine

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
De jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.


Canção do Outono
Tradução de Alphonsus de Guimaraens

Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...

Douglas P. Coelho

terça-feira, 12 de junho de 2012

Poetas da Resistência: Paul Éluard


Paul Éluard é um dos nomes mais venerados da poesia francesa, considerado como integrante do movimento de vanguarda surrelista. Mas apesar da estética onírica da escola artística, Éluard foi um poeta militante e engajado socialmente, um dos maiores representantes da Resistência Francesa na literatura.

Seu poema mais célebre e conhecido é o maravilhoso Liberté (Liberdade), que teve milhares de exemplares lançados por aviões ingleses dentro da França ocupada pelos alemães, surgindo como um símbolo de esperança para um país sob ameaça nazista. Com o feito, Éluard tornou-se o grande homem das letras à frente da Resistência através de versos que a todo momento clamavam pelo bem que há muito parecia completamente suprimido.

Além, de Liberdade, os versos do livro Poemas Políticos traduzem bem o sentimento de necessidade da união e libertação dos homens: "vos queria libertar para vos unir", deseja o poeta em A Poesia Deve Ter Como Fim a Verdade Prática. Em Ó Meus Irmãos Contrários, reitera a força da liberdade - se utilizando de elementos que a lembram, como uma ave ou uma criança - pela união dos oprimidos: "Ó meus irmãos perdidos, com tão pouca esperança que a morte tem razão, eu vou para a vida tenho aparência de homem (...) E não estou só, mil imagens de mim multiplicam a luz, mil olhares semelhantes igualam a carne, é a ave é a criança é a rocha é a planície que se misturam a nós". E através de outro grande poema de título já bastante sugestivo, Grito, exprime sua vontade de por por terra os dias de medo e impotência através de um grito que gere ecos e frutos; num tempo em que "todos falavam e escreviam demasiado baixo", o poeta surge para "derrubar os gestos sem luz e os dias impotentes"; o desejo do poeta era que os homens, na semelhança de sua desgraça se descobrissem, finalmente, iguais: "Estou perfeitamente seguro agora que o Verão canta debaixo das portas frias (...) Ardem no meu coração as estações dos homens, trêmulos de tão semelhantes serem".

Douglas P. Coelho

Para ler os poemas citados na íntegra, clique sobre os nomes:
Liberdade
Gritar
Ó Meus Irmãos Contrários
A Poesia Deve Ter Como Fim a Verdade Prática

domingo, 10 de junho de 2012

Carlos Drummond e o poema da empatia - Parte 2


Após adentrar no campo da poesia social com Sentimento do Mundo, de 1940, Carlos Drummond de Andrade publica cinco anos depois outra obra bastante representativa desta fase: A Rosa do Povo.

Apesar da temática social, esta obra difere da outra por ter um teor reflexivo acerca do papel do artista num mundo transformado pelo horror e incompreensão. Neste sentido, a rosa seria uma metáfora para o artista, no caso, o poeta, como última esperança para o medo e o desamor. Tal sentimento fica claro já na pequena estrofe que serve de prólogo ao livro.


"A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alma?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil,
pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um olvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha, e uma rosa se abre, um segredo comunica-se. O poeta anunciou, o poeta, nas trevas, anunciou."

O poeta é o responsável por fazer a rosa se despetalar em meio às trevas ou à rua cinzenta como diz no belíssimo poema "A Flor e a Náusea"; nele o poeta fala da importância em se enfrentar o "enjoo" pela palavra: "Vou de branco pela rua cinzenta (...) Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? (...) Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera." O poeta também lamenta pelo homem que não é capaz de compreender a sua miséria e vive como um "morto-vivo" sem contato com a arte, metáfora tão utilizada na obra de Drummond: "Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. Vomitar esse tédio sobre a cidade. (...) Todos os homens voltam para casa. Estão menos livre mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem." É um poema que sintetiza a necessidade de desautomatizar o cotidiano pela arte: "Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. (...) É feia. Mas é realmente uma flor. (...) Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."

No livro, há também poemas dedicados à uma preocupação evidente com a guerra e suas consequências. "Carta a Stalingrado" é o maior exemplo disso, com referência à Segunda Grande Guerra já no seu título, através do nome Stalingrado, cidade onde se deu a batalha decisiva entre a União Soviética e a Alemanha que delineou a derrota dos nazistas. O poema é um ode à cidade, que aqui aparece como um símbolo aos novos tempos, tempos de esperança à harmonia global, Stalingrado é o símbolo da resistência e confronto à barbárie. "Stalingrado, quantas esperanças!".

Douglas P. Coelho

Para ler os dois poemas na íntegra, clique sobre os nomes:
A Flor e a Náusea
Carta a Stalingrado

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Carlos Drummond e o poema da empatia - Parte 1

Carlos Drummond de Andrade, um dos mais célebres poetas brasileiros, se notabilizou pela sua poesia lírica das suas primeiras obras onde cantava o amor e outros sentimentos que povoavam seu espírito. Porém, à medida que o mundo se transfigurava em algo absolutamente ameaçador em meio às guerras, fome e afrontas aos direitos do homem, Drummond redirecionava sua poesia para o social, para um "eu menor que o mundo". Seus dois livros mais notáveis desta fase foram Sentimento do Mundo (1940) e a Rosa do Povo (1945). Nesse primeiro post, vamos comentar um pouco sobre o primeiro.

A poesia agora empática e altruísta de Drummond já se manifesta no título do livro, Sentimento do Mundo, um prenúncio de que o tempo presente obrigava o autor a voltar o olhar sobre as barbaridades do "novo mundo" e para as necessidades dos homens. Nele contém temas como crítica à burguesia pela sua passividade frente aos horrores e às injustiças contra as classes oprimidas, o medo e tensão causados pela presença quase física da guerra, a conformidade do trabalhador em face da impossibilidade de reverter sua situação (de "dinamitar a ilha de Manhatan", na metáfora de Drummond), mas principalmente a transformação que o mundo sofreu e a consequente mudança de atitude do poeta.

Já no poema de abertura, poema homônimo ao título do livro, há a contrição pela demora em enxergar o mundo a sua volta: "Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado (...) Os camaradas não me disseram que havia uma guerra (...) humildemente vos peço que me perdoeis"; pode-se interpretar pela palavra "camaradas" como alusão aos outros poetas que, como ele, não se preocupavam, até o momento, em falar sobre as guerras, o medo e a miséria - este significado volta à tona no último poema, Mundo Grande com a palavra "amigos" no penúltimo parágrafo.

A percepção da transição da paz para a destruição é tratada claramente em Lembrança do Mundo Antigo:
"Clara passeava no jardim com as crianças.

O céu era verde sobre o gramado,

a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das onze horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!"
O antigo mundo de Clara era também o antigo mundo em que o poeta escrevia suas poesias líricas sobre o "eu". No poema Mãos Dadas, ele decreta: "Não serei poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. (...) Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins"; ao invés de poesia "entorpecente" ou subjetivamente pessimista (cartas de suicida), ele prefere cantar o tempo presente e dar as mãos com os homens de seu tempo: "Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas".

O último poema é um grande resumo de todo o resto do livro e talvez o mais simbólico em se falando de direitos humanos - considerando que este tem por base a empatia; o "mundo grande" maior do que o "coração do poeta" é a reafirmação de sua nova poesia. Ele fala de outros poetas que como ele fugiram de suas "ilhas" para anunciarem que "o mundo tá crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor"; o poeta que cresceu junto com seu coração para abrigar as dores dos homens agora escreve versos contundentes para nos levar a refletir sobre nossa posição frente à identidade do outro: "estúpido, ridículo e frágil é meu coração. Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. (...) Outrora escutei os anjos, as sonatas, os poemas, as confissões patéticas. Nunca escutei voz de gente. Em verdade sou muito pobre".

Douglas P. Coelho


Clique em cima dos nomes para ler os seguintes poemas na íntegra (não se esqueça, é claro, de que ler o livro na íntegra é o mais adequado):

Mãos Dadas - com áudio do Drummond recitando o poema
Mundo Grande - com áudio do Drummond recitando o poema

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Militância pelo abolicionismo em Castro Alves - Parte 2

Na segunda parte do post sobre a literatura negra engajada de Castro Alves, trazemos mais um poema do autor retirado do livro "Os Escravos", de 1883: "A Canção do Africano".

No poema, o eu-lírico pinta o saudosismo de um escravo e uma escrava para com seu continente de origem; eles entoam um canto em louvor à sua terra e sua alegria e belezas naturais. Mas no final, a doce canção é interrompida pelo medo do escravo de ser surrado pelo seu senhor, caso fosse pego acordado até mais tarde e pelo cuidado da escrava em não acordar seu pequeno filho, do qual tinha medo de perder, sendo ele levado pelo dono do engenho.


A Canção do Africano
Castro Alves

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

Douglas P. Coelho

sábado, 26 de maio de 2012

Militância pelo abolicionismo em Castro Alves - Parte 1

Dentro da literatura socialmente engajada do século XIX, um poeta brasileiro se destacou na luta ferrenha pelo direito dos negros escravizados: Castro Alves, o "Poeta dos Escravos".

Uma parcela considerável de sua obra foi voltada para o tema, de forma a ajudar a impulsionar a mentalidade da sociedade da época para a futura abolição da escravatura. Castro Alves cantava não só as atrocidades e injustiças que eram cometidas pelos senhores de engenho para com seus escravos - as agressões físicas e pesadas cargas de trabalho a eles impostas -, mas também o preconceito social que o negro sofria, por vezes até dificultando sua ascensão social, como foi o caso do próprio poeta que por tal razão não conseguiu obter o prestígio que merecia dentro de sua sociedade.

Abaixo, confira a transcrição de algumas partes de um de seus célebres poemas, "Vozes d'África" pertencente ao livro "Os Escravos" de 1883, onde o autor fala pelo povo oprimido e reclama a Deus o fim de seu sofrimento:


Vozes d'África
Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
(...)
Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...
Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.
Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...
Para ler o poema "Vozes d'África" completo, você pode clicar AQUI.

Douglas P. Coelho

domingo, 6 de maio de 2012

Poema "Le dormeur du val", de Arthur Rimbaud


Arthur Rimbaud foi um poeta francês que viveu no século XIX e escreveu grandes obras da literatura francesa. Aos dezesseis anos, escreveu um poema chamado "Le dormeur du val" que descrevia uma única cena estática de forma belíssima: um soldado morto com dois tiros jazendo num campo verde. Abaixo, confira a tradução do poema e um vídeo com sua interpretação pela cantora Sapho.

Poema traduzido:

O adormecido do vale

Era um recanto onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha; um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde, onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma criança que risse, enferma, no seu sono;
Tem frio, ó Natureza - aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

Tradução de Ivo Barroso retirada do livro "Arthur Rimbaud. Poesia Completa - Edição Bilíngue". Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

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