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terça-feira, 31 de julho de 2012

Poema "A Escravidão" de Tobias Barreto


Tobias Barreto foi um importante poeta brasileiro, embora muito esquecido pela crítica. Participou do movimento literário do Romantismo, tendo inclusive a fundação do Condoreirismo creditada a ele.

O Condoreirismo ou Terceira Fase Romântica, foi um movimento artístico-literário marcado pelo poema social e de defesa do abolicionismo, de ideias republicanas e igualitárias. Portanto, a temática da escravidão era recorrente (ver posts sobre Castro Alves no blog); abaixo, confira o poema "A Escravidão", de Tobias Barreto, publicado no livro "Dias e Noites" (1893):

A Escravidão
Tobias Barreto

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...

1868

Douglas P. Coelho

terça-feira, 10 de julho de 2012

A ideologia da Negritude - Parte 2: Aimé Césaire


A corrente literária da Negritude, de consciência e afirmação da cultura negra, teve em Léopold Sédar Senghor um de seus mentores. Mas além dele, o outro grande idealizador foi o poeta, ensaísta e também político francês Aimé Césaire.

Um de seus poemas mais representativos e conhecidos é "Caderno de um regresso ao País Natal". Nele, Aimé Césaire demonstra toda sua veia literária e põe em discussão duas de suas maiores lutas: as lutas contra o preconceito e contra o colonialismo. Punha em dúvida o "direito" dos países de primeiro mundo em subjugar os países da Ásia e principalmente da África; além, é claro, da habilidade de se travestir com a identidade do homem oprimido, este que inclui o negro e qualquer outro tratado como tal. Essa é uma peça chave do seu poema, Césaire fala do "homem-fome", "homem-tortura", "homem-insulto" e "homem-judeu", universaliza sua luta pelo direito à vida e à dignidade humana: "o homem-fome, o homem-insulto, o homem-tortura, que a qualquer momento pode ser abusado e espancado a murros, ou morto - sim, matá-lo - sem a ninguém dar contas nem apresentar desculpas"; depois, o poeta continua: "a minha boca é a boca dos desgostosos que já não têm boca, a minha voz, a liberdade dos que sucumbem às masmorras do desespero"; versos anti-colonialistas também são enfáticos: "a África gigantescamente canilizada ante o pé hispânico da Europa, a sua nudez onde a Morte ceifa a grandes passadas"; já o conceito de Negritude aparece pela primeira vez explícito através deste poema: "Minha negritude não é uma torre nem uma catedral (...) perfura a opressão opaca da sua paciência estreita" - aqui a palavra paciência pode ser interpretada também como tolerância.

Para ler um excerto traduzido do poema "Caderno de um regresso ao País Natal", clique AQUI.

Douglas P. Coelho

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A ideologia da Negritude - Parte 1: Léopold Sédar Senghor


O século XX foi um momento capital para a discussão e prática do conceito de direitos humanos; se os tempos anteriores serviram para a elaboração do mesmo, agora as perspectivas vinham ganhando um plano mais concreto. No que se refere à cultura negra, apesar da abolição da escravatura e da proibição do tráfico de escravos, percebia-se que havia muito a ser conquistado ainda. Então vimos emergir grandes nomes dos mais variados campos do conhecimento e de atuação - filosofia, literatura, política - que chamaram para si a missão de guiar a afirmação negra dentro da sociedade: Martin Luther King, Malcom X e Nelson Mandela foram alguns dos mais importantes e notáveis. Dentro da literatura, surgiu uma corrente literária de valorização dessa cultura negra e africana, seus costumes e suas crenças espirituais.

Um dos principais idealizadores desta corrente foi o escritor senegalês Léopold Sédar Senghor que também atuou na política, sendo eleito o primeiro presidente de Senegal. Nas suas poesias, o escritor francófono valorizava principalmente a beleza da mulher negra, descrevia e exaltava suas particularidades e qualidades. Dois ótimos exemplos são os poemas "Mulher Negra" e "Máscara Negra", este último dedicado ao artista plástico Pablo Picasso.

Leia os dois poemas de Senghor nos links abaixo:

Mulher Negra
Máscara Negra

Douglas P. Coelho

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Militância pelo abolicionismo em Castro Alves - Parte 2

Na segunda parte do post sobre a literatura negra engajada de Castro Alves, trazemos mais um poema do autor retirado do livro "Os Escravos", de 1883: "A Canção do Africano".

No poema, o eu-lírico pinta o saudosismo de um escravo e uma escrava para com seu continente de origem; eles entoam um canto em louvor à sua terra e sua alegria e belezas naturais. Mas no final, a doce canção é interrompida pelo medo do escravo de ser surrado pelo seu senhor, caso fosse pego acordado até mais tarde e pelo cuidado da escrava em não acordar seu pequeno filho, do qual tinha medo de perder, sendo ele levado pelo dono do engenho.


A Canção do Africano
Castro Alves

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

Douglas P. Coelho

sábado, 26 de maio de 2012

Militância pelo abolicionismo em Castro Alves - Parte 1

Dentro da literatura socialmente engajada do século XIX, um poeta brasileiro se destacou na luta ferrenha pelo direito dos negros escravizados: Castro Alves, o "Poeta dos Escravos".

Uma parcela considerável de sua obra foi voltada para o tema, de forma a ajudar a impulsionar a mentalidade da sociedade da época para a futura abolição da escravatura. Castro Alves cantava não só as atrocidades e injustiças que eram cometidas pelos senhores de engenho para com seus escravos - as agressões físicas e pesadas cargas de trabalho a eles impostas -, mas também o preconceito social que o negro sofria, por vezes até dificultando sua ascensão social, como foi o caso do próprio poeta que por tal razão não conseguiu obter o prestígio que merecia dentro de sua sociedade.

Abaixo, confira a transcrição de algumas partes de um de seus célebres poemas, "Vozes d'África" pertencente ao livro "Os Escravos" de 1883, onde o autor fala pelo povo oprimido e reclama a Deus o fim de seu sofrimento:


Vozes d'África
Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
(...)
Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...
Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.
Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...
Para ler o poema "Vozes d'África" completo, você pode clicar AQUI.

Douglas P. Coelho
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